SOBRE A TRANSITORIEDADE

Galeria Arteformatto - Fazenda Boa Vista - São Paulo - 2021

texto - Sylvia Sanchez

 

Luz e sombra. Abundância e escassez. Silêncio e caos. Estabilidade e transformação. Permanência e mortalidade.

Contemplar a natureza é abrir janelas para dualidades. É abrir janelas para potências e desamparos, quando exuberância e finitude se mostram de mãos dadas. E, diante da intransigência do tempo, fazem nascer poesia.

Poesia essa que pode ganhar corpo em papel e madeira, entre verdes e marrons, densidades e transparências, revelações e ocultações - elementos que a artista articula para nos convidar a um mergulho no mistério da vida, da morte e daquilo que, transformado, permanece. O papel e a madeira, em si transmutações de elementos naturais, interagem com representações fotográficas da beleza selvagem, a qual, deste modo, revela-se presente e ausente a um só tempo.

Em seu texto "Sobre a Transitoriedade"- que inspirou o título desta exposição - Freud descreve um passeio pelo campo na companhia de um poeta, que afirmava-se triste pela constatação de que toda aquela beleza natural que observava, assim como toda a beleza criada pelos homens, estaria fadada à extinção. Diante disso, Freud propõe que, ao contrário, a preciosidade da vida e da beleza repousa em sua fugacidade: "A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição". E prossegue afirmando que a beleza é determinada pela significação que tem para a vida emocional, de modo que sobrevive enquanto significar algo para alguém.

Em suas construções para tencionar a transitoriedade do mundo, Beatriz Monteiro dá sua contribuição para que a beleza - da arte e da natureza - sigam eternas para quem contempla suas obras.